Historia

Guará: Quem criou, porque e quem foram seus primeiros habitantes?

Após a abordagem sobre o bairro Lúcio Costa na edição de número 200, publicada no início de julho, o jornal deu um passo atrás para que a história da cidade pudesse ser contada com mais detalhes desde o início de sua construção no final dos anos 60, quando Brasília já estava praticamente concluída. E, na época, eis a dúvida: como abrigar os novos moradores que ajudaram a construí-la.

O prefeito da época, engenheiro Wadjô da Costa Gomide (15/03/1967 a 12/11/1969), o último dos mandatários do DF nomeados por um presidente da República, no caso aí pelo governo militar chefiado pelo marechal Arthur da Costa e Silva, foi o responsável pela criação da então cidade-satélite do Guará. Wadjô contou com um coadjuvante de peso: o engenheiro Rogério Freitas Cunha, presidente, à época, da Novacap, considerado o criador dos primeiros assentamentos da futura cidade.

Atribui-se ao engenheiro Rogério Freitas o método de sortear as primeiras casas na QE 3 do Guará I. “Bilhetes numerados foram colocados dentro de um chapéu de palha. Cada número correspondia a uma casa já enumerada”, relatam as pesquisas históricas.

Ainda sobre o engenheiro, conta-se um fato curioso relatado pelo próprio filho de Rogério, o hoje empresário Rafael. “Meu pai me contou certo dia que existia um movimento dos primeiros moradores do Guará para que a cidade chamasse Rogelândia, o que o levou a publicar uma portaria, como Presidente da Novacap, proibindo que isso acontecesse naquela época ou no futuro”.

A cidade do Guará foi criada em 1967, com a finalidade de abrigar trabalhadores do SIA (Setor de Indústria e Abastecimento), invasões, núcleos provisórios e funcionários públicos.

As primeiras residências surgiram através do projeto “Mutirão da Casa Própria”, liderado pelo engenheiro Rogério de Freitas Cunha. Seus funcionários construíram suas próprias casas, onde hoje é a QI 05, sendo os primeiros habitantes da cidade.

 

Barro e poeira

Segundo lembram os participantes da jornada, ao redor do primeiro grupo de casas só havia mato, barro e poeira vermelha. Inicialmente foi instalado, em regime precário, o abastecimento de água. Mas não havia energia elétrica e a luz só era possível com lampiões e velas.

A única opção de lazer era uma academia de Judô e Luta Livre (telequete). Na mesma casa onde funcionava a academia eram promovidas festinhas nos finais de semana, onde alguns se cotizavam para comprar bebidas e outros participavam levando salgados e doces.

Paralelamente ao trabalho pioneiro, a Sociedade de Habitações de Interesse Social (SHIS), iniciou a construção de mais três mil casas, que somadas àquelas do mutirão, constituiu o núcleo inicial do Guará I.

A inauguração do Guará ocorreu em 21 de abril de 1969. Seu aniversário, porém, é comemorado no dia 05 de maio.

Em setembro de 1969, a NOVACAP e a SHIS prosseguiram com a urbanização do segundo trecho, o setor Guará II, para atender os funcionários da União. Essa parte da cidade foi inaugurada em 02 de março de 1972.

O Decreto nº 2.356 de 31.08.73, criou a Administração Regional que compõe o Guará I, Guará II, o SRIA (Setor Residencial Indústria e Abastecimento). Com o advento do Decreto nº 11.921 em 25.10.1989, o Guará, até então denominado SRIA e ocupando uma área de 8,6 Km², passa a ocupar uma área de 45,46 Km². As QIs 3 e 5 foram as primeiras quadras construídas.

 

Guará supera previsões

O Guará não parou no mutirão. Continuou a crescer para se transformar na mais cobiçada Cidade-Satélite, transformada no berço da classe média do Distrito Federal.

Em setembro de 1969, o Setor Residencial Indústria e Abastecimento (SRIA), nome oficial, foi ampliado para o Sul, em direção ao Núcleo Bandeirante. O objetivo era atender aos funcionários públicos de menor renda transferidos para Brasília junto com os últimos ministérios, além de industriários e comerciários inscritos da SHIS.

A cidade inchou. Aos 2,994 Km² foram acrescidos mais 5,136 Km², totalizando 8,130 Km². Transferidos, a maior parte do Rio de Janeiro, os funcionários públicos chegavam ao Guará, aonde viriam a morar. Muitos servidores preferiam perder os empregos e as casas e retornavam para a cidade de origem.

Mesmo depois de parcialmente concluído, o Guará II, hoje uma área supervalorizada, ainda não despertava o interesse dos contemplados com casa.

As quadras mais baixas eram constantemente alagadas na época das chuvas, e a lama entrava nas casas. Uma nova rede de captação de águas pluviais foi implantada, resolvendo o problema que tanto transtorno levou aos moradores.

Em 1984, o então Administrador Regional, Francisco Pinheiro Brandes, resolveu melhorar ainda mais a cidade. Atendendo aos apelos dos moradores, que se sentiam incomodados com o barulho das oficinas que funcionavam em residências nas quadras, ele criou o Setor de Oficinas do Guará, em uma área privilegiada no coração da satélite. Resolveu dois problemas de uma vez, pois também atendeu as reivindicações dos mecânicos que queriam um lugar para trabalhar e retirou as oficinas do convívio dos moradores.

O Setor Empresarial foi ampliado em 2000 com a implantação da Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) do Guará, conhecida também como Polo de Moda, onde foram assentadas 420 novas empresas.

 

Feira vira referência

 

No Guará II, a situação é diferente. A vida noturna é agitada, o comércio se mistura com as casas e é onde se localiza a “Feira do Guará”, um dos centros comerciais mais conhecidos do DF.

A dona de casa Maria Doralice Albuquerque disse que é possível viver apenas com os serviços do Guará. “Mudou muita coisa. Já dá para viver só daqui do Guará. Dá para fazer compras, supermercado. Antes a gente não tinha nada aqui.”

Em 1985, o então Governador José Ornelas, já no final de seu governo, desenvolveu um programa de assentamento de famílias que moravam em invasões. Somente no Guará 523 famílias, que viviam precariamente na Vila União, Guarazinho, Vila Socó e Vila da CEB, ganharam terreno do GDF. Dois anos depois, mais 200 famílias da invasão da 110 Norte foram instaladas na QE 38.

Em 1987 e dentro de sua história que registra um crescimento populacional acima das previsões, o Guará inchou ainda mais com a inauguração do Conjunto Habitacional Lúcio Costa. Em março de 1990 mais de 400 famílias foram assentadas nas QEs 42 e 44, elevando a população oficial para quase 100 mil Pessoas, segundo os dados da Codeplan sobre o censo demográfico.

Dentro da expansão do território do Guará, no final de 1989, a área da Cidade-Satélite, de 8,130 Km², foi aumentada para 39 Km², com inclusão do Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), Terminal de Transporte Rodoviário e Cargas (STRC), Setor de Oficinas Sul (SOF Sul), Carrefour, Parkshopping.

Na mesma época, a cidade perdeu a denominação oficial de Setor Residencial Indústrias e Abastecimento (SRIA) para tornar-se oficialmente a Cidade-Satélite do Guará.

Berço da classe média

O Guará mudou totalmente o seu perfil nesses mais de 30 anos; tornando-se, hoje, a Região Administrativa que concentra grande parte da classe média. Segundo pesquisas da Codeplan, o Guará tem a sexta maior renda per capita das Regiões do Distrito Federal.  O Guará tem um dos metros quadrados de imóveis mais caro do Distrito Federal.  

As casas originais da época do mutirão, construídas pela SHIS, cederam rapidamente lugar para sobrados e condomínios de bom nível, evidenciando a seleção socioeconômica de sua população. Por causa do tamanho dos terrenos no Guará, eles chegam a no máximo 360 metros no Guará I. A arquitetura puxou pela criatividade, com uma grande variedade de projetos interessantes e diferentes de casas térreas e sobrados.

 

Reduto privilegiado

 

O Guará, do ponto de vista esportivo e lazer, é privilegiado, pois conta com um kartódromo, Centro Administrativo Vivencial e Esporte (Cave), a Feira do Guará, um shopping comercial de grande porte e dois destinados à decoração, hipermercado e uma gama variada de lojas que oferecem diversos produtos, que atraem mão de obra de outras cidades.

Até 2005, a administração regional era responsável pelo SIA, bem como pelo Setor de Transporte rodoviário de Cargas, Setor de Inflamáveis e Cidade Estrutural, quando passaram a gerir suas próprias localidades. Hoje, a RA X administra Guará I e II, Setor de Oficinas Sul e o Conjunto Lúcio Costa.

O Guará deve seu nome ao córrego que leva este nome e corta a cidade. Provavelmente esse curso d’água recebeu este nome em homenagem ao lobo guará, muito comum na época do início da construção.

 

Projeto Urbano

 

O projeto habitacional do Guará I e do Guará II guardam distinções. O primeiro é formado por um padrão de quadras, divididos por numeração ímpar (01 a 11) e pares (02 a 22). Cada quadra possui casas, apartamentos e comércios. A identificação é alfabética, tanto para conjuntos ou blocos. A divisão das residências com os prédios é simples. Cada quadrilátero tem casas e blocos, formando a quadra interna (QI), enquanto que as que rodeiam são chamadas de quadras externas (QE), originando-se assim endereços como QI 09, QE 09, QI 02, QE 02…

O Guará II possui as quadras maiores em comparação ao seu vizinho, lembrando um retângulo, compostas de casas, sendo sua identificação feita por letras. As quadras internas são constituídas de prédios residenciais e comerciais, identificadas por lotes (lote 01, lote 02…).

No Guará I, a igreja São Paulo Apóstolo é considerada a matriz do padroeiro da cidade. Abriga ainda vários templos de outras religiões. O evento religioso promovido pela igreja católica, a Via Sacra, que acontece todos os anos, atrai grande público.

Mesmo sendo servidos pelo metrô, que tem duas estações na cidade, muitos moradores ainda se utilizam de seus carros como meio de transporte diário. Isso acaba acarretando congestionamento no trânsito.

 

Setor de Oficinas

 

Criado em 1984 pelo ex-administrador Francisco Pinheiro Brandes, esse setor surgiu em função das muitas reclamações de moradores incomodados pelo barulho e também para atender á demanda dos oficineiros, que buscavam um local fixo para trabalhar. Só que passado os anos, hoje, o que menos se vê são oficinas mecânicas. Há de tudo um pouco por lá, incluindo diversas moradias, dando uma nova configuração à região.

 

Polo de Moda

 

Este setor, inaugurado em 2000, passou a receber desde então cerca de 400 empresas. Muitas delas alavancadas pelo programa Pró-DF. O setor se localiza na Área de Desenvolvimento Econômico (ADE), do Guará II. Mas atualmente se observa muitas irregularidades em sua estruturação. Muitos de seus empreendimentos fugiram de destinação, transformadas hoje em moradias.